Nascido em Santiago, RS, e filho de militar – do Cel. Prof. Constantino, que muitos conheceram no CMPA, peregrinamos por várias cidades brasileiras… Assim, minha irmã e mais três irmãos nasceram, cada qual num lugar, fosse em Jaguarão, Curitiba, Recife ou Porto Alegre…
Também passamos por Corumbá, MS, onde meu pai se interessou pelo magistério. Desde criança, guardei lembrança daquela viagem de trem, cruzando o Pantanal, final dos anos 50, em direção à fronteira boliviana. Como sinalizasse quão distantes estaríamos, e por tempo indeterminado, de nossos parentes e amigos… Então, visitamos o histórico “forte Coimbra” e sua vila militar, descendo o rio Paraguai, numa embarcação… Nestes confins da nação, onde as forças armadas se fazem presente…
Em 1960, já em Curitiba, meu pai foi nomeado professor, sendo transferido para Recife, onde lecionou francês, no CMR, e concluiu o curso de Letras. Mais tarde, 1966, em Porto Alegre, passou à disciplina de português, no CMPA…
Sempre que possível, tais viagens eram realizadas economicamente… Assim, para Corumbá, ônibus de Jaguarão até São Paulo, para pegarmos o trem… E a travessia do Pantanal, surpreendente e perigosa, feita em linha férrea instável, com o trem jogando como estivesse no mar… Para Recife, ônibus de Curitiba ao Rio de Janeiro, para pegarmos um navio. E lembro da escala em Salvador, numa manhã ensolarada na “Baía de Todos os Santos”… Por fim, retorno ao RS em avião de paraquedismo, da FAB, que voava baixo e balançava muito. Foram 9 horas de enjoo e vômitos, a bordo, até o Rio, onde pegamos ônibus para Porto Alegre…
Do Nordeste, guardamos belíssimas lembranças, sobretudo, da infância em Recife. Do vibrante carnaval – do frevo e do maracatu. Da memória holandesa pelas ruas, pontes e prédios da cidade; ou do “forte de Orange”, na ilha de Itamaracá, cuja maré subia rapidamente, no final do dia… Além das praias e magnífica vegetação, entre jambeiros e mangueiras, frutos que colhíamos no pé…
E, após 10 anos de andanças, voltamos ao sul, retomando convívio familiar. Em saudoso e afetivo reencontro com tios, primos e avós. E a vida seguia… Morávamos no bairro Bom Fim, quando fiz concurso ao CMPA. E reprovado em 1968, tornei a fazer em 1969. Uma surpresa para meus pais e frustração inesperada, quando vi minha nota vermelha na lista…
Então, meus pais decidiram organizar um curso de admissão, na garagem de antigo sobrado, transformada em sala de aula, na rua Santa Terezinha. Lá me preparei com afinco, marcado pelo descuido anterior… E com outros colegas de curso, como Paulo Contieri, Mário Barbosa, José Vitola, Lino e outros, fomos aprovados… E durante a passagem pelo CMPA, interesse maior pelo estudo de música iniciava. Também nos tornamos colorados – influência de tio materno, festejando os momentos gloriosos do clube! Além da espetacular seleção de 1970…
Em termos musicais, meu pai era apreciador eclético. E, desde criança, me habituei a ouvir e me emocionar… Ele era obsessivo quando gostava de algo. E lembro de uma “Missa Luba”, ritual cristão, cantado em dialeto africano, que ouvia incansavelmente. Também, da “Tocata e Fuga”, de Bach; ou da “Abertura” da ópera “Rienzi”, de Wagner. Todas em alto volume… Além da prática de acordeão, quando jovem oficial. Embora, vindo a desistir, fruto da concorrência com “Mickey”, nosso ovelheiro, que invariavelmente uivava ao som do acordeão…
Assim, adentrei o mundo da música e estudei piano, com a professora do bairro. Depois, segui na Escola de Belas Artes, hoje, Instituto de Artes, da UFRGS, onde me formei… Ambiente acolhedor e pessoas, profundamente, interessadas no que faziam. Nesta fase, tive apoio de alguns amigos e o colega Régis Pavani me acompanhou no dia do teste! Era algo novo, pela prática artística; e diferente, se comparado ao currículo e à formação do CMPA…
E concluído o 2° Grau, ingressei no curso de Engenharia Civil, da UFRGS, me formando em 1982, simultaneamente, ao curso de música… Como estudante, realizei concerto para piano e orquestra, de Mozart, com nossa orquestra sinfônica – OSPA. Então, enriquecedora e desafiante experiência… Para tanto, interrompi estágio na área de orçamentos, em empresa de infraestrutura urbana. Período em que convivi com saudoso colega e poeta, Paulo Pereira da Silva, em andanças pelos bares e pela noite porto alegrense – assim, enfileiramos algumas cervejas…
Profissionalmente, optei inicialmente pela música e lecionei na Fundarte, de Montenegro, RS, que hoje abriga diversos cursos na área de artes e educação… Depois, decidi atuar como engenheiro civil, onde adentrei aos poucos, confesso, não sem resistência pessoal… Mas, ao longo dos anos, adquiri alguma experiência e, por fim, atuei na área da habitação popular… Ainda assessoro cooperativas de baixa renda, em projetos e na regularização fundiária…
Sem abandonar atividades em música, sigo acompanhando corais e realizando música de câmara… Também, estive na organização de eventos culturais, em Garibaldi, RS, com minha esposa, Liana; e cursos de aperfeiçoamento, em Konz, Alemanha… E, quando jovem, uma breve passagem pela música nativista, anos 80, na “Califórnia da Canção”, de Uruguaiana, e outros festivais…
Por fim, casado com Liana Maria, tenho uma enteada e neto de 8 anos, Pedro Arthur… Meu pai faleceu aos 62 anos, portanto, há cerca de 35 anos; e minha mãe segue tocando a vida, aos 88 anos… Vida que sempre nos reserva surpresas. Algumas, gratificantes e prazerosas; outras, que pedem resiliência e superação; por vezes, empatia e compaixão… Enfim…
De minhas andanças, também pude viajar e conhecer um pouco do mundo, lá fora… Hoje, procuro manter o otimismo e preservar certa coerência, entre informação e leituras, que faço, do que acontece por ai… Sem me aferrar demasiado à convicções, procuro ficar atento à crítica e à possibilidade do equívoco… E se a vida é uma dádiva, tem que valer a pena, sobretudo, para expressarmos, com liberdade e prazer, nossos melhores sentimentos e talentos… Saudações a todos!