Último ano de escola. Pressões e expectativas sobre o futuro. Seguir a carreira militar ou prestar vestibular? Em meio a tudo, o exercício como Diretor Cultural da Sociedade Esportiva e Literária – SEL, o máximo de “organização estudantil’ a que os estudantes do CMPA tinham acesso.
Assume, no ano, um novo comandante, o Cel. Evilácio Pereira. Ao saber da minha existência no corpo de alunos, manda me chamar. Não o conhecia, até então.
Ao se apresentar, de forma efusiva e fugindo um pouco do padrão, comentou que era amigo de infância da minha mãe e colega de turma do meu pai. Perguntou como estava a minha e que iria procurá-la.
Conversa vai, conversa vem, percebi que tinha uma grande oportunidade: fazer uma entrevista para publicar no Jornal da SEL, que eu editava.
Perguntei se ele aceitava e prontamente falou que sim, que seria um prazer e até interessante, visto que há pouco havia chegado no colégio. Marcamos para outro dia, de modo a que tivesse tempo para preparar as perguntas.
No dia marcado e munido de uma boa quantidade de perguntas, começamos a entrevista. De ressaltar que não houve ajuste prévio algum quanto aos temas que poderiam, ou não, ser abordados. Praticamente uma conversa guiada pelas perguntas que ia fazendo.
Por vezes, quiçá pela intimidade familiar, acabava expressando algumas ideias de forma, diria, mais livre. E eu anotando tudo. Terminada a entrevista, me desejou sucesso no caminho que escolhera seguir.
Não tardei a editar o material e a publicar mais uma edição do Jornal da SEL. E, claro, distribuí-la para todos os alunos.
Na sexta-feira seguinte à distribuição e ao término da formatura geral, ouço, no alto-falante da escola: “aluno 854 Escosteguy, comparecer à sala do comando”. Como já havia me reunido algumas vezes com ele, imaginei que iria me felicitar pela publicação.
E qual a minha surpresa, em lá chegando, ao receber algo que a gíria mais usual não pode ser usada aqui. Vamos substituir por admoestação.
Reproduzo o diálogo.
– Escosteguy, isso não se faz!
– Como assim, Coronel?
– Eu te recebi como filho do meu amigo e da minha amiga de infância e tu me faz isso?
– Mas o que foi que eu fiz? (Claro que eu sabia, mas tinha que manter a inocência)
– Eu falei coisas que não poderiam ser publicadas. Foram ditas na amizade, mas eu sou o comandante do colégio. Não era para serem publicadas.
– (ainda com carinha de inocente, mas já prevendo a punição. Se na época já existisse o Chapolin Colorado, eu pensaria: “e agora, quem poderá me defender?”) Não imaginei que não poderia publicar.
Ainda tranquilo, perguntou quantos exemplares eu tinha produzido e mandou que recolhesse todos e entregasse para ele.
Passei dois dias recolhendo o “jornal proibido”. E, claro, esse foi o fim da minha aventura como editor de jornal estudantil.