Autoridades presentes, queridos colegas familiares e amigos.
Quero aqui convidá-los a uma breve viagem pelo passado. Por um pedaço do nosso passado.
O que significa este prédio? O que significa este casarão? Estas arcadas… Placas… Estas lajes de arenito riscadas… Numa manhã do início de março de 69, entramos por este mesmo portão de hoje. À paisana. Ainda ansiosos por vestir os uniformes, mas levava uns dias.
Por que esta escola significa tanto para mim e acredito que para todos nós? Afinal passamos aqui de forma geral apenas sete anos de nossas já longas jornadas (outros levaram menos, saíram antes, entraram depois… outros até ficaram mais tempo…).
Talvez tenha sido a organização e disciplina que nos foi incutida desde cedo. Vínhamos do primário, é verdade. Que naquele tempo era muito bom via-de-regra. Mas nesta escola havia uma formatação. Algo que não havia de forma tão explícita no curso primário.
Logo começamos a aprender coisas novas. Cada um de nós ganhou um número, que na grande maioria dos casos nos acompanhou durante todo o período escolar. Entrar em forma. Mais altos à frente. Sentido e descansar. Cobrir, para que a distribuição fosse adequada. Mais tarde toques que representavam cada comando. Formatura diária. Todo o Corpo de Alunos uma ou duas vezes por semana e em eventos especiais. Nas demais vezes a formatura era na Companhia. Começava-se pela Primeira Companhia (três primeiros anos ginasiais). Depois Terceira (4ª ginasial e 1° colegial) e finalmente Segunda (2° e 3° colegiais).
Tínhamos um sargento monitor dedicado a cada turma. Isto no primeiro ano (depois acho que já não era um por turma). E os sargentos em geral eram os que nos incutiam estes novos conceitos, este novo jeito de “operar”. Na verdade, as matérias eram Português, Matemática, Geografia, História, Iniciação às Ciências, Inglês e Francês. Mas havia mais: Educação Física e – algo totalmente novo – Instrução Militar. Acho que consigo até nominar nossos primeiros monitores: sargentos Luzardo, Morais Tavares, Feijó e Sabadini. Começamos a escutar coisas como apresentação impecável: casquete depois boina, borzeguim depois coturno brilhante, cinto também, polido a Brasso (com dois esses). Túnica cáqui, que depois caiu. Calça cáqui, calça garance, túnica branca em ocasiões especiais, barretina e talabarte em ocasiões ainda mais especiais…
Havia um chefe de turma que na chegada do professor gritava “atenção a sala! Sala sentido!” O professor (um para cada matéria – também novidade…) entrava e dizia ou simplesmente sinalizava “à vontade”. Todos nos sentávamos. As faltas do dia já marcadas pelos números num canto do quadro. E ninguém podia se atrasar. Os atrasados da semana formavam num grupo separado à esquerda do comandante. Nas formaturas havia uma parte, que dizia algo como: quarta parte justiça e disciplina. Era uma parte bem chata, onde eram mencionados os retidos até as 6 da tarde e os detidos durante o final de semana. Algo impensável nas demais escolas de Porto Alegre. Cabelo era curto. Corte zero no início, depois foi melhorando. Passou a corte um e acho que no final era três, mas não tenho certeza. E isto numa época em que todo jovem usava cabelo comprido.
Mas este formato, esta organização e disciplina não eram este o único diferencial.
Em contraposição a este sistema formatado e organizado, havia um ambiente leve de camaradagem, de brincadeiras. Comemoração de aniversário incluía uma sova com casquetes e depois boinas no aniversariante. Novos esportes chegaram a ser desenvolvidos tais como o esqui sobre boina… Guerras de giz, apagar o quadro com algum colega mais baixo… Lembram da Tuamãe? A gatinha Tuamãe, que tinha hábitos reprováveis… Termos típicos: abostado! andarolas! Já buscou? Boi corneta. Expressões que eu nunca mais usei. Era só aqui. Apelidos politicamente incorretos. Fomos chamados até de “porcos imundos” num memorável acampamento no Saint-Ilaire durante o Curso de Formação de Reservistas (CFR). Melhor nem falar. Hoje isto tudo seria chamado de bullying.
Mas ninguém ligava na época. Tudo era levado numa boa. Não havia ódios reprimidos. Pelo contrário, muita amizade e sobretudo lealdade. E respeito. Respeito pelos terceiros que nos apoiavam por exemplo. Seu Filandro, Negão sorveteiro, Negão Chatô que lavava carros, pessoal da barbearia e do bar. Todos tratados com respeito e camaradagem. Eram amigos na verdade. Posso estar idealizando um pouco. Afinal, a gente acaba lembrando mais das coisas boas mesmo. Certamente houve falhas, houve até injustiças, mas no final do dia – como dizemos hoje num americanismo corporativo – certamente era um ambiente saudável.
Também foi aqui que despertamos nossa sexualidade. Bailes no Salão Brasil, ou em ocasiões especiais, em clubes de Porto Alegre. Era quando dançávamos com as gurias. Ao som de grandes conjuntos. Boinas Azuis, Impacto. Grandes músicas daquele tempo: Santana, Have You Ever Seen the Rain, Alone Again era limpa banco. Também foi aqui que olhávamos escondidos as Fair-Play, Penthouse e outras. Algumas mostravam até a frente! E como bem lembrado por alguns colegas, havia entre outras a grande empreendedora Antônia, referência no treinamento e desenvolvimento de competências no campo da iniciação.
Voltando à escola propriamente dita, um terceiro aspecto era a qualidade do ensino. As matérias eram dadas com um enfoque agressivo. Aprendíamos coisas “importantes”. Tudo era importante para nossa formação.
A Matemática era a Moderna: teoria dos conjuntos (pertence, não-pertence, contém, está contido, intersecção, união, etc), depois funções, álgebra, geometria (ângulos correspondentes, ângulos opostos pelo vértice, bissetriz, segmentos, mediatriz). Depois fomos crescendo em complexidade para logaritmos, trigonometria (seno e cosseno), geometria analítica, análise combinatória, até chegar a operações com funções, limites, derivadas, integrais, conceitos da lógica matemática, de universos numéricos, coisas que estudantes de nossa idade só veriam nos cursos de engenharia bem depois.
Desenho era rigoroso. Minha nota mais baixa em VE foi quando o professor nos deu um problema que exigia a aplicação do segmento capaz de um ângulo dado. Tirei 4.8. E foi a segunda nota da aula. Mais tarde entramos na Geometria Descritiva, linha de terra, épura. Chegamos até a desenhos em perspectiva cavaleira. Duvido que outras escolas explorassem Desenho desta forma. Nunca usei na verdade. Mas é que em Desenho, assim como na Matemática, o objetivo era desenvolver a visão plana, a visão espacial, o raciocínio, enxergar e resolver problemas.
História também não era só memorização. Ela é a “mestra da vida”. O foco eram as causas e consequências das grandes revoluções, guerras, movimentos, impérios, renascimento, reforma, contrarreforma, capitalismo, socialismo, mercantilismo, liberalismo. Tudo isto escutamos pela primeira vez nestas salas.
Geografia muito cedo nos trouxe os aspectos físicos (planetas, crosta terrestre, acidentes geográficos), aspectos políticos (países, cidades, capitais) mas também e principalmente os aspectos humanos (povos, nações) e econômicos (desenvolvidos, subdesenvolvidos, em desenvolvimento, renda per capita, PIB, principais recursos, agricultura, indústria, petróleo, carvão, minerais, comércio, conceito de serviços). O que caracterizava, o que fazia de forma objetiva um país ser desenvolvido ou não. E era época do Milagre Brasileiro. E sonhávamos com um Brasil grande e desenvolvido. Sonhos.
Foi aqui que ouvimos pela primeira vez a expressão OSPB. Grupos sociais, o homem como ser social, bem comum, governo, regimes e sistemas de governo. Conhecemos e chegamos a estudar a Constituição da época.
As matérias mais científicas evoluíram aos poucos. Química começou apavorando. Física um pouco menos. Biologia era fácil. Tiramos de letra os estudos de genética.
Filosofia nos colocou em contato com os grandes pensadores da Humanidade. Além de nos dar alguma visão de artes (Vivência e Arte) e até psicologia.
Vou me fixar um pouquinho mais nos estudos da Língua Portuguesa. No CMPA, Português nunca foi muito dedicado a ortografia. O foco era a interpretação dos textos e depois a análise sintática: qual a função de cada termo em uma oração – o crivo sintagmático. Uma metodologia que nos permitiu desde então compreender o que cada palavra fazia, por que ela estava ali. Assim se entende realmente um texto. Se capta a ideia que o autor quis dar ao escrever. Hoje ainda somos um País onde o analfabetismo funcional trava nossa evolução. Permite falas com duplo sentido e não-claras. Quem não entende um texto ou não faz a conexão entre as palavras de uma frase se torna presa fácil de narrativas. Então também em Português, o objetivo era aprender a pensar. Muitos odiavam a análise sintática, mas acho que hoje todos reconhecemos a importância e o valor deste tipo de abordagem.
Além deste enfoque por si já desafiador, os temas nos primeiros anos não eram triviais. Eram provocadores. Os grandes autores nacionais obviamente (Castro Alves, Casimiro de Abreu, Monteiro Lobato) mas também da Humanidade. Ilíada, Odisseia e assim por diante.
Por exemplo, falamos sobre a importância de um ideal. Isto acabou marcando inclusive nosso lema: O ideal custa uma vida, mas vale uma eternidade. … Através de um pequeno, mas marcante texto do Gen. MacArthur, conhecemos o que ele defendia como o verdadeiro significado de ser jovem.
“És tão jovem quanto a tua fé; tão velho quanto a tua descrença. Tão jovem quanto a tua confiança em ti e em tua esperança; tão velho quanto ao teu desânimo.
Serás jovem enquanto te conservares receptivo ao que é belo, bom e grande; receptivo às mensagens da Natureza, do homem, do infinito”.
Tão verdadeiro e importante para nós, coroas de hoje. Clint Eastwood escreveu algo parecido: “Não deixem entrar o velho…” E pensar que passamos por estas ideias há mais de 50 anos…
Mas voltando então ao início desta nossa conversa. Por que esta Casa significa tanto para nós? Porque foi uma escola de vida. Onde entramos como meninos e saímos como homens capazes de enfrentar nossos mais variados desafios, tornarmo-nos profissionais, criar nossas famílias, nossos empreendimentos, desenvolver nossas ideias e enfim darmos nossa contribuição, sim darmos a nossa contribuição ao Brasil e ao Mundo.
Muito obrigado CMPA, muito obrigado a todos vocês, meus colegas, meus irmãos!